Mulheres que inspiram – conheça a piloto Moara Sacilotti

Algumas pessoas têm o poder de inspirar. Seja pelo pioneirismo em fazer algo, pelo modo leve como encara a vida ou pelos títulos, há quem tenha o poder de incentivar os que lhe cercam a ir mais longe. E gente como a piloto de motos Moara Sacilotti, que reúne um pouco de cada um desses atributos! Não à toa, ela é a nossa escolhida para prestar uma homenagem a todas as mulheres que inspiram nesse Dia Internacional da Mulher, celebrado na próxima sexta-feira!

Escolhemos a determinação de Moara Sacilotti, multicampeã de provas off road, para homenagear a força das mulheres neste dia 8 de março!
Escolhemos a determinação de Moara Sacilotti, multicampeã de provas off road, para homenagear a força das mulheres neste dia 8 de março!

Paulista de 39 anos, ela compete de moto desde os sete e traz no currículo 18 participações no Rally dos Sertões (o maior do País), três títulos do Campeonato Brasileiro de Rally e duas conquistas do Rally RN 1500 – todos conquistados competindo com homens. Além disso, foi vice-campeã Mundial de Rally em 2013, título inédito entre brasileiros. Acompanhe a entrevista e inspire-se com sua história!

10 perguntas para Moara Sacilotti

É formada em fisioterapia, embora nunca tenha atuado na área. Seu lugar sempre foi mesmo na terra, competindo em provas de motocross (onde tudo começou) e de rali, modalidade na qual por inúmeras ocasiões foi a única mulher do grid. Moradora de São José dos Campos (SP), é casada com Rodolfo Bazetto – que também anda de moto, claro.

Começou no motocross aos 7 anos, totalmente influenciada pelos pais – afinal o pai era piloto e a mãe, chefe de equipe – e praticamente junto do irmão mais novo, Ramon, um dos grandes nomes do rally brasileiro. Aos 18 anos, foi a primeira mulher a correr o Rally dos Sertões de moto (e concluiu toda a prova já em sua primeira participação). Atualmente se aposentou das competições profissionalmente e dedica-se, além de acompanhar provas off road, ao trabalho na sua oficina de joalheria artesanal.

Ao lado do marido Rodolfo Bazetto (em um evento de motos, claro)
Ao lado do marido Rodolfo Bazetto (em um evento de motos, claro)

1 – Quem é a Moara?

É uma mulher que ama andar de moto. Se puder competir melhor ainda, mas o que realmente importa é ir de moto, pela terra, o mais longe possível!

2 – Responda rápido: empoderamento feminino é…. ?

… fazer o que se quer sem medo de ser feliz, sem amarras, sem preconceitos e sem deixar de ser feminina. Ah e sem essa de querer ser superior, somos todos iguais!

3 – O que pediria de presente neste Dia Internacional da Mulher?

Gostaria que as mulheres olhassem mais para suas semelhantes. Respeitassem mais umas às outras. Acredito que o verdadeiro empoderamento feminino só vai existir quando o machismo feminino acabar – a mulher que se sente ofendida por algum comportamento masculino, mas que fala mal da outra, da roupa da outra… Sem meias palavras: a mulher que diz que a outra é vagabunda porque está com saia muito curta. Isso é um exemplo de machismo feminino e enquanto existir, nós, mulheres com garra para enfrentar o mundo, continuaremos a nadar contra a correnteza.

4 – Você é uma referência feminina no off road brasileiro. Acredita que sua história inspire outras mulheres a fazer algo?

Nossa capacidade de influenciar pessoas é uma loucura, não fazemos ideia do alcance de nossas atitudes! Eu sempre achei que corria de moto só pra mim mesma e minha família, mas hoje recebo mensagens de gente do mundo todo que acompanha minha carreira. Mais que isso, pessoas que vem me dizer que por eu ser mulher num esporte tão masculino as encorajo a tomar atitudes, fazer algo que tinham vontade mas tinham medo… Posso contar duas histórias?

Dona Nenê, lá no Rio Grande do Norte, viajou não sei quantos quilômetros só para me ver pessoalmente, tirar uma foto e dizer que é minha fã. Aconteceu num dia que eu estava baixo astral, porque fiz besteira na navegação (durante um rali) e fui penalizada. Chorei! Foi impressionante porque aquilo me deu força pra andar melhor no dia seguinte!

A outra história é da Bárbara Neves, hoje piloto de fábrica e campeã latino-americana de enduro. Mas desde que tinha cinco anos ela vai todos os anos me ver nas largadas do Sertões! E quem ela chamou às 6 horas da manhã do dia do lançamento da equipe? Agradecendo, dizendo que isso só é possível porque eu fui uma das inspirações pra ela! Chorei de novo!

Foram 18 participações no maior rali do Brasil, sempre competindo entre homens. E de pensar que alguns marmanjos apostaram que ela não resistiria nem ao seu primeiro Sertões...
Foram 18 participações no maior rali do Brasil, sempre competindo entre homens. E de pensar que alguns marmanjos apostaram que ela não resistiria nem ao seu primeiro Sertões…

5 – Qual o maior desafio que encontrou na terra?

Queria poder contar tudo que já passei sobre duas rodas, todas as dificuldades e também aqueles momentos que duram milésimos de segundos mas que são maravilhosos, como um salto ou uma curva perfeita onde não havia fotógrafos! (risos) Cada momento, cada segundo sobre a moto foi fundamental para que eu me tornasse quem sou hoje. Essa pessoa que parece frágil mas que não leva susto, que não tem medo de trovão nem de cara feia. Mas acho que o maior desafio foi meu primeiro Sertões.

Até então eu só tinha corrido de motocross e era muito nova, magrinha, com uma moto inadequada. Houve uma etapa entre Goiânia e Paranã (TO) que foi interminável. Eu e meu pai levamos 14 horas para completar! Muita poeira, carros nos ultrapassando, escureceu e não dava pra ver a estrada com aquele farol baixo e sujo. Não tinha como ver a planilha, mais poeira… Acho que teve uns 900 km. Depois dessa eu sabia que já não era mais a mesma pessoa que largou dias antes em São Paulo!

Girl Power! Moara voando na terra com sua Kawasaki e a amiga Flora pilotando o helicóptero
Girl Power! Moara voando na terra com sua Kawasaki e a amiga Flora pilotando o helicóptero

6 – O ambiente das competições é hostil às mulheres?

O mundo off road é totalmente receptivo com as mulheres. Algumas modalidades tem categorias femininas e nas que não tem por falta de grid (caso do rally) somos muito bem recebidas – especialmente pelos pilotos e equipes. Isso é um avanço incrível! E me deixa muito feliz!

Quando comecei no rally, 20 anos atrás, foi f…a (não tenho outra palavra mais adequada, sinto muito). Tinha até aposta de quantos dias eu aguentaria no meu primeiro Sertões. Mas depois de completar logo na estreia, eles perceberam que eu não estava só fazendo graça, que iria competir com eles pra valer e passaram a me tratar com muito respeito e carinho. Hoje tenho muitos amigos no rally!

7 – Você correu profissionalmente por muitos anos, teve experiências em diversas competições importantes. Nesse período houve crescimento na participação feminina?

A piloto foi vice-campeã Mundial de Rali, em 2013
A piloto foi vice-campeã Mundial de Rali, em 2013

Na minha primeira corrida, lá em 1987, éramos três meninas no gate. Depois, por muitos anos, era só eu, ou eu e mais uma entre os meninos. Quando migrei para o rally começou a ter mais meninas no motocross e surgiram nomes como Stefany Serrão, Mari Balbi e outras. Enquanto isso eu seguia sozinha no Brasileiro de Rally, e vez ou outra dividindo o Sertões com mais alguma, como a Marieta Morais – que correu várias edições do evento.

Hoje, existem categorias femininas no motocross e no enduro – tem até uma etapa só para mulheres com grid em torno de 80 competidoras, e isso é sensacional! Acredito que o crescimento se deu principalmente pela evolução da comunicação. A facilidade em se obter todo tipo de informação na internet, hoje na palma da mão, te deixa confortável para pesquisar, entrar em contato com pilotos, organizadores etc. Eu mesma tenho contato com pessoas de longe, coisa inimaginável nos anos 90. Só falta essa mulherada encarar o rally! Éramos três no Sertões 2018, mas ainda faltam pelo menos duas para conseguirmos a categoria feminina.

8 – Por que deixou de correr profissionalmente?

Porque corri nessa condição durante muitos anos. Especialmente nos últimos 10 anos, com muita cobrança, dedicação e trabalho. Claro que ser piloto profissional foi incrível, sou infinitamente grata aos meus patrocinadores, especialmente a Kawasaki com a qual corri durante seis temporadas. Mas pra mim chegou a hora de fazer outras coisas, ter mais tempo para viajar com o Rodolfo. De qualquer forma, sempre posso mudar de ideia e voltar a competir profissionalmente…

Nos ralis, pilotos e equipes passam dias no interior, comendo poeira por milhares de quilômetros. Mas e a vaidade, onde fica?
Nos ralis, pilotos e equipes passam dias no interior, comendo poeira por milhares de quilômetros. Mas e a vaidade, onde fica?

9 – Tem espaço para a vaidade em meio a poeira dos ralis?

Posso ser a campeã do “desafio da cara feia” porque nos ralis realmente não tem como me cuidar! (risos) Os dias vão passando, o cansaço vai apertando e as prioridades mudam, então é mais importante cuidar da moto. Depois, quando vejo as fotos, só consigo pensar ‘que horror, por que eu não passei um cremezinho, uma base, por que não penteei os cabelos?’ Hahahahah!

Não tem jeito! Mas sim, sou super vaidosa e me cuido no dia a dia. No cotidiano é fácil, minha vida de atleta ajuda, já que me alimento super bem e vivo na academia. Entre treinos e trabalho sempre arrumo tempo pra cabeleireiro, dermatologista… Meu sonho é tirar o capacete depois de um rally super longe e difícil e estar loira e linda! Sonho mais bobo!

10 – Obrigado por compartilhar sua história com a galera da Agenda Off Road! E o recado final, vai para quem?

A todas as meninas e mulheres que já pilotam ou que sonham em entrar no mundo off road! Que elas não se deixem intimidar por piadinhas grosseiras, apostas ou até mesmo olhares de reprovação. Se é o que querem, sigam seus sonhos! Não vai ser fácil, mas tudo bem, esse é o grande lance: superar a si mesma! Quanto maior o desafio, mais saborosa a vitória!

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